Na 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, palestrantes convocaram a população a escolher políticos comprometidos com o desenvolvimento de políticas sobre drogas que respeitem a justiça social.
Durante o evento no Anfiteatro Sérgio Motta, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, todos os oradores enfatizaram a importância do voto consciente, direcionado a candidatos que compreendam a complexidade da questão, a fim de elaborar propostas que realmente atendam às necessidades da sociedade.
A médica de família e comunidade, Magda Almeida, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), destacou que existe uma visão ideológica que reduz a discussão a um único ponto: a ideia de que ‘maconha faz mal’. Ela também ressaltou que a população negra e de baixa renda é a mais afetada pela chamada ‘guerra às drogas’ no Brasil. Magda compartilhou sua experiência no consultório, onde observa o uso de pregabalina, um medicamento para epilepsia, ansiedade e fibromialgia, que pode ter efeitos colaterais graves e que poderia ser substituído por alternativas como a cannabis.
Dados da Blis Data, que possui o maior banco de informações sobre usuários de cannabis medicinal na América Latina, revelam que mulheres mais velhas e empregadas são as principais consumidoras desse produto no Brasil, buscando alívio para problemas como insônia e dor crônica.
O 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) confirma que a cannabis é a droga ilegal mais consumida no país, com um aumento significativo no uso entre adultos e adolescentes nos últimos anos. Mais da metade dos entrevistados afirmou ter consumido a substância diariamente por pelo menos duas semanas, representando 3,3% da população brasileira.
A médica também criticou a indústria farmacêutica por padronizar doses sem considerar as particularidades de cada paciente, ressaltando que ‘cannabis não é uma solução universal’.
Os debates na feira também abordaram questões sociais, como a seletividade das polícias e do sistema judiciário, o encarceramento em massa da população negra e o crescimento de facções criminosas. Segundo pesquisa do Datafolha, 40% da população brasileira vive sob a influência de organizações criminosas, o que equivale a 68,7 milhões de pessoas.
O advogado Italo Coelho, especialista em direito penal, comparou a repressão à cannabis com a perseguição a tradições culturais como a capoeira e o samba, enfatizando que enquanto a indústria pode comercializar maconha, pessoas ainda são presas por pequenas quantidades.
Tamára Silva, cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza, criticou a abordagem repressiva das autoridades e destacou que a situação atual resulta em mais prisões e mais violência, enquanto o narcotráfico continua a prosperar.
A advogada Bianca Cardial, mediadora do evento, lembrou que o encarceramento gera custos significativos para as famílias, com gastos que podem chegar a R$ 4,33 bilhões por ano apenas com itens básicos para os detentos.
Além disso, uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania revelou que R$ 7,7 bilhões foram gastos em 2023 para implementar a Lei de Drogas em apenas seis estados brasileiros, enquanto o custo dos homicídios relacionados à proibição das drogas atinge cerca de R$ 50 bilhões anuais.
A Febre de Arte, organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica, contou com a parceria da Auê Feira, que trouxe sua experiência de mais de 100 edições no Ceará, atraindo um público de mais de 500 mil pessoas. O evento também incluiu a Rua das Associações, um espaço dedicado a organizações do Nordeste que apoiam pacientes que utilizam cannabis medicinal.
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